Em Mazagão, o concurso público virou uma espécie de série em capítulos. Já teve operação, mandado de busca e apreensão, suspeita de venda de gabaritos, candidatos investigados, prova anulada e agora protesto de concurseiros na Câmara Municipal. O que ainda parece faltar é um personagem principal assumir o roteiro: a própria Prefeitura.
Na sexta-feira, a reportagem do Jornal dos Municípios esteve em Mazagão e acompanhou de perto o clima de insatisfação. Dezenas de candidatos que participaram do concurso procuraram a Câmara de Vereadores para cobrar providências. O presidente da Casa, Professor Leonicio Filho, informou que uma comissão foi criada para acompanhar o caso, mas não detalhou quais outras medidas concretas o Legislativo pretende adotar no exercício de sua função fiscalizadora.
Enquanto isso, o prefeito Chico Nó não estava na sede do município durante a passagem da reportagem. E na administração municipal, a secretária de Administração, Ana Dalva, afirmou desconhecer qualquer esquema criminoso relacionado ao certame. A declaração chama atenção porque ela própria foi citada pela imprensa local como alvo de mandado na primeira fase da Operação Gabarito. Isso, porém, não significa culpa: o caso segue sob investigação.
O Ministério Público, por outro lado, não parece estar tratando o assunto como mera fofoca de corredor. Em abril, o Gaeco deflagrou a Operação Gabarito e cumpriu nove mandados de busca e apreensão em Mazagão. A investigação apura suspeita de comercialização de respostas por valores entre R$ 10 mil e R$ 30 mil, conforme o cargo pretendido.
Em maio, a investigação avançou para Belém, onde dois candidatos foram alvos de mandados de busca e apreensão. O Gaeco também realizou inspeção na sede da Inaz do Pará, empresa responsável pelo concurso.
A gravidade das suspeitas levou o Ministério Público a recomendar a suspensão do processamento dos gabaritos e a preservação dos malotes do certame, diante do risco de comprometimento da cadeia de custódia.
Em setembro, a própria Prefeitura anulou a prova objetiva e determinou sua reaplicação. Ou seja: o concurso já foi oficialmente atingido pelas consequências da investigação, mesmo que ninguém na administração pareça muito disposto a explicar, em público, como o município chegou a esse ponto.
Para os candidatos, resta esperar. Para o Ministério Público, investigar. Para a Câmara, fiscalizar. E para a Prefeitura, talvez tenha chegado a hora de fazer algo além de dizer que não sabia de nada.
Porque, em Mazagão, o gabarito do concurso pode até estar sob investigação. Mas o da transparência administrativa ainda parece cheio de questões em branco.
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