Quem passa pelos corredores da prefeitura hoje em dia pode até achar que está em um universo paralelo. Enquanto milhares de concurseiros honestos estão em casa chorando as pitangas, tomando calmante e olhando para as apostilas com cara de tacho, a toda-poderosa Secretária de Administração — sim, a mesmíssima coordenadora do certame que virou caso de polícia na Operação Gabarito — continua batendo ponto normalmente. Ela anda saltitante, com o rímel em dia, exalando o perfume da impunidade pelos corredores do palácio municipal, como se nada tivesse acontecido. É um deboche cinematográfico na cara do cidadão.
O escândalo explodiu, a farsa foi desmascarada e o veredito veio: o concurso foi cancelado. A operação policial e o Procedimento Investigatório Criminal (PIC) do Ministério Público do Amapá (MP-AP) escancararam o esquema onde as vagas e os gabaritos eram vendidos pela bagatela de R$ 30.000. Isso mesmo, trinta mil reais era o preço para furar a fila do mérito. Para quem passou noites em claro tomando café preto para estudar, o prêmio foi um belo balde de água fria e o bolso mais vazio com a taxa de inscrição que virou fumaça.
A investigação, tocada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco-AP), avançou pesado e já está em sua segunda fase, onde novos mandados de busca e apreensão miram os candidatos beneficiados. Mas o verdadeiro mistério digno de novela não é nem a audácia dos fraudadores, e sim o comportamento do prefeito Chico Né.
Diante de um crime desse tamanho, cometido debaixo do seu próprio nariz por gestores que ele mesmo escolheu, qual foi a atitude do nosso gestor? Demissão sumária? Olho da rua? Processo administrativo? Nada disso. Chico Né preferiu a tática da blindagem premium com superproteção.
A pergunta que não quer calar e que o povo exige resposta é: por que o prefeito não exonerou a pessoa que coordenou o crime? Qual é o superpoder dessa secretária para se manter inabalável no cargo após um vexame desses, amplamente documentado nos autos do inquérito do Ministério Público? Aí a gente fica aqui, pensando com os nossos botões e deixando aquela pulga atrás da orelha: será que essa blindagem toda é só uma lealdade bonita e comovente de chefe para funcionária? Ou será que o prefeito Chico Nó teme que, caso ela seja jogada aos leões, resolva abrir a boca e contar quem mais dividia a mesa desse banquete de R$ 30.000? Quem muito blinda, algo teme.
Enquanto os desdobramentos do Gaeco avançam e a Justiça não bate o martelo final, a secretária segue desfilando sua impunidade e o trabalhador que acreditava na honestidade da prova segue com cara de palhaço, esperando para saber se a prefeitura virou um balcão de negócios ou se o prefeito vai finalmente criar coragem para limpar a casa.
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