COLUNA FÓRUM OPTIMUM
O VENDEDOR DE REDES

Por Adilson Garcia
Da pobreza e aridez do Cariri, Raimundo Chapeleta com sua enorme cabeça chata retirou-se da fome que afligia sua mulher Maria Bonita e seus três filhos.
Em Fortaleza passou dias pelas ruas com a saca de sarrapilha com seus paninhos de bunda, seu único patrimônio, perambulando pedindo restos de comidas pelas bodegas da orla.
Raimundo não sabia fazer nada, a não ser criar bodes. Não sabia ler e nem tinha documentos. E nem lenço!
Trabalhador cabra da peste, não seria a pobreza do Ceará que o prostraria.
Entretanto, paradoxalmente um acidente mudaria sua vida: um de seus pirralhos escapou das mãos de Maria Bonita e foi atropelado por um caminhão apinhado de redes. Ferimentos leves, o caminhoneiro “Gato Véi” se compadeceu da situação de Raimundo.

-Umbora vender redes comigo. Eu te arrumo um quartinho no fundo da minha casa para agasalhar sua família.
Assim, o Pirambu, a terceira maior favela do Nordeste e a sétima do Brasil, ganhou mais uma família.
Com o sol torturante torrando a moleira, mitigado pelos ventos que balançam as “paiá” dos coqueiros, Raimundo Chapeleta vendeu todas as redes possíveis no Ceará.
Com seu jeito pitoresco e característico que faz do sertanejo cearense acima de tudo um homem forte, pelas praias do Mucuripe, do Cumbuco, da Iracema ou nos arrabaldes paupérrimos de Caucaia, lá estava Chapeleta curvado de redes no lombo, sob o sol causticante, cantando alegre sua paródia:
-Olê, mulé redeira, olê mulé redá, tu me ensina a fazer rede, que te ensino a namorá...
-Si eu propô, voismicê propõe?
-“É” cem reais a rede... diz tu que eu digo..
-Dou trinta....
-Fechô, pode “iscoiê”, mas leva essa xadrez com rendas...
Mas aqueles ventos que balançam as “paiá” dos coqueiros, encrespam as águas do mar e assanham os cabelos das morenas da linda música “Prece ao Vento”, levaram Raimundo para as terras do Pará.
Um certo dia Gato Véi lhe convidou:
-Umbora pro Pará, Chapeleta? Diz que o pessoal lá é chegado numa rede...
As margens do igarapé Tucunduba, no lamacento, perigoso e miserável bairro Terra Firme de Belém do Pará, na divisa do Riacho Doce (que de doce não tem nada), foi o local escolhido para construir um barracão de madeira, sem água e energia. Ali, como sói ocorrer, era tudo gato.
Família instalada, percorria Chapeleta com sua carga de redes pelo Guamá e Jurunas o dia todo. Só parava de tarde na hora de chuva que cai todo dia em Belém (alô, Pinduca). Nas férias amassava as areias da praia de Salinas, mas vendia muito:
-Olê, mulé redeira, olê mulé redá, tu me ensina a fazer rede, que te ensino a namorá...
Depois de serem roubados pelo menos dez vezes no Beco do Relógio e na Ponte do Galo, desistiram da perigosa Belém. Chapeleta e Gato Véi resolveram partir para Manaus, onde vendedor de cama e colchão passa fome porque os manauaras também são chegados numa rede.
Venderam muitas redes, mas o custo de vida em Manaus era escorchante...

Singraram para o Amapá. No balanço do barco Ana Beatriz, Gato Véi e Chapeleta desmaiaram depois de três tubos de Velho Barreiro e Maria Bonita dividiu sua rede com um cacique da Aldeia do Manga, bom de prosa que só.

Quando o curumim nasceu, Chapeleta estranhou os olhinhos puxados e os cabelinhos espetados:
-Que diacho é isso, muié?
-Ah, marido, prevariquei!
-Tedoidá, é? E agora? Vou te matar!
-Marido, pai não é quem faz! Pai é quem cria...

Raimundo Chapeleta chegou a pensar na sua peixeira no bucho da “mulé” rapariga da peste.
Mas ponderou, afinal não conhecia seu pai biológico, foi criado na fome e na sede, mas com carinho por seu padrasto. Relevou e tomou o indiozinho nos braços como seu filho.
De rede em rede, Raimundo Chapeleta formou os três filhos, um “dotô adevogado”, uma engenheira de pesca e um biomédico.
Todo foram embora para Santa Catarina, pois no Amapá, como é público e notório, não tem emprego para ninguém, a menos que você tenha “QI” (esclareço: não é quociente de inteligência, rsss). Ou seja, um peixe ou um “pica grossa” para lhe indicar num cargo no “gunverno”.
Tempos depois um câncer de mama não diagnosticado precocemente levou Maria Bonita de volta para o Cariri Celeste.

E hoje se vê pelas ruas de Macapá um menininho de olhos puxados e cabelinhos espetados empurrando uma estridente cadeira de rodas enferrujada e nela um velhinho curvado pelo tempo e pelo peso de muitas redes no cangote entoando triste quase sem forças uma cantinela:
-Olê, mulé redeira, olê mulé redá, tu me ensina a fazer rede, que te ensino a namorá...

Comentários: