COLUNA FÓRUM OPTIMUM

Por Adilson Garcia
A PADARIA DOS SONHOS

Amigo, sempre que você for atrás de um sonho e não encontrar, não desista! Procure na próxima padaria. Rss.
Vou contar uma história que envolve sonhos: sim, sonho recheados de comer e o sonho de vencer e ser alguém na vida.
Na sua infância “pobre de marré deci” o sonho do menino era entrar na vizinha Padaria Açukapê, que ficava ali nos paralelepídedos da av. Herval na década de 60 na então poeirenta Maringá e comer aqueles doces: bombas de chocolate, quindim, pudim, brigadeiro, torta de maçã e morango cujas caldas derramavam pelos lados, enquanto a baba saia dos cantos da boca do menino à frente da vitrine.
Lógico, era um sonho porque menino pobre nem entrava lá, aqueles tempos as coisas eram muito caras. Ou então a pobreza era muita! Kkkk.
Bem, isso é muito relativo porque quando você acha um preço exorbitante, não é a coisa que tá cara: é você que tá ganhando pouco! Pense nisso... rsss.
E parece que aqueles tempos da carestia voltaram porque hoje qualquer iguaria custa um rim: quer ver, experimenta fazer um lanche nos aeroportos? Kkk.

Está tudo muito caro, mas considerando que há anos não temos um reajuste no poder de compra do salário, cai naquela vala comum acima: você tá ganhando pouco! Não reclame.
Hoje pobre só prova um pedaço de carne quando morde a língua! Ráráráráráááá.
Picanha então só quando o Lula tomar posse... estou na contagem regressiva para a virada do ano! Ah, se a picanha não baixar esse “fidumaégua” me paga: me rouba logo! Me enganar duas vezes, não!
Mas o menino de “pé vermeio” sonhava, sonhava....
-Vou trabalhar e ganhar dinheiro, entrar na Açukapê e comer todos aqueles doces!
Certa feita, o primo mais velho do menino pobre comentou que estava vendendo sonhos de uma vizinha boleira e saía pelas ruas com a cestinha cheia, de casa em casa.
O garoto ficou matutando como ele vendia sonhos? Será que ele entrava na cabeça das pessoas durante o sono e pegava o sonho para vender? Rss.
-Não, primo, sonho é aquele bolinho redondo, fofinho, com recheio de creme de baunilha, chocolate, goiabada ou marmelada. Vou trazer para você, a boleira sempre me dá alguns.
E foi assim que o menino pobre comeu seu primeiro sonho. Nossa! Chegava derramar saliva da boca...
Algumas décadas depois, o menino pobre realizou seu sonho de vencer na vida (e de comer sonhos, comeu tantos que hoje é diabético! kkkk) e voltou à sua cidade.
Os arranha-céus soterraram a casinha de madeira onde morava e o hotelzinho que sua tia e sua mãe arrendavam. Mas não soterraram os sonhos e as lindas lembranças de sua infância pobre mas feliz.
Para manter essas memórias, o doutor comprou um apartamento luxuoso de um espigão que brotou no quintal onde ele brincava com os amiguinhos e seus bichinhos de estimação, a gata Xaninha e o cão perdigueiro Chulim.
Xaninha morreu picada por uma cobra peçonhenta (é, gente, aquele tempo tinha cobra no centro de Maringá! Tá pensando o quê?). Chulim foi sacrificado na sua frente (buá, buá) porque ficou raivoso.

Caminhando pelas ruas centrais, o doutor foi à Açukapê com vontade de concretizar o que fora na infância uma quimera, que é o resultado da imaginação que tende a não se realizar, pois para ele, quando que um menino descalço converter-se-ia em milionário?
Ledo engano dele porque o Brasil, apesar dos pesares, é um país de oportunidades para que quer trabalhar.
Lá chegando, não havia mas a padaria no local. O prédio foi demolido e em seu lugar construíram um moderno centro comercial.
Alguém que o visse diria que endoidou, pois é característico dos loucos falarem sozinhos (rerererê). O doutor pensou consigo mesmo, falando alto:
-Poxa, fechou a Açukapê! Um dos poucos sonhos que não realizarei.
Mas ali, no seu flanco, um senhor negro bem velhinho, de barbas brancas e poucos pixains na cabeça, sentado na sua poltrona de engraxate enquanto aguardava clientes, puxou conversa:

-Eu ouvi o que o senhor pensou alto. Não encuca não, eu também falo sozinho. É coisa da idade.
E continuou a prosa:
-Eu sou engraxate aqui desde a década de 1950. Vi tudo mudar, tudo se transformar. Criei minha família, formei meus filhos com a latinha de graxa e a escova de sapato na mão. Presenciei vitórias e derrocadas de muitos na evolução do tempo. E a propósito, a Açukapê não fechou. Ela mudou-se para um prédio maior ali na outra rua.

O doutor aproveitou para engraxar o sapato e enquanto aguardava o brilho final na pelica italiana, o velho engraxate contou histórias que fê-lo assistir um filme retrô da sua vida.
Refletindo a luz solar no bico do sapato a cada passada, o doutor caminhou serelepe e parou em frente à vitrine da Açukapê, talvez a mais antiga confeitaria e padaria do norte do Paraná, tão velha como o rascunho da bíblia (rss).
Os doces eram os mesmos, até a vitrine parecia a mesma. Um arrepio correu a espinha quando vieram as fantásticas lembranças da sua infância e a promessa que fizera.

O doutor entrou e provou cada uma daquelas guloseimas impiedosamente, porque agora tinha dinheiro até para comprar a padaria.
Com diabetes avançada (que é coisa do diabo, a começar pelo nome rss), o exagero do doutor descontrolou o nível de glicose resultando numa hiperglicemia.
Entrou em estado de coma e morreu ali debruçado sobre a vitrine do balcão da padaria dos seus sonhos, entre bombas de chocolate, quindins, pudins, brigadeiros, tortas de maçã e morango cujas caldas derramavam pelos lados.
Moral da história: realize seus sonhos, mas não exagere!
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