Amapá is bleeding!
(Amapá está sangrando!)

O estado lidera o ranking com 56% da população na linha de pobreza, saúde abandonada e sem saneamento. O Amapá está sangrando!
Bruno Aarão/Da Editoria
O que parece ser manchete do The New York Times, um dos jornais mais influentes do mundo, é uma forma de chamar a atenção e ao mesmo tempo suavizar o título que em tradução literal quer dizer “Amapá está sangrando!”. Infelizmente, o Amapá parece atravessar seu inferno astral. A realidade do estado parece-nos ilustrar, em alguns momentos, na vida real, o roteiro de Sin City, onde crimes, vinganças e sofrimentos são naturalizados e viram rotina.

Enquanto isso, no latíbulo da nobreza política amapaense, congraçam-se os poderosos, que entre uma taça e outra de Brunello di Montalcino (vinho) e fatias de carne wagyu cuidadosamente finalizadas com um pincelada de Hispasur Gold (azeite), paroleiam e definem o futuro do Amapá.
No livro ‘Amapá: A terra onde o Brasil começa’ dissertam os autores “O Amapá é o único estado do Brasil que se tornou brasileiro pela vontade de ser brasileiro…”. A afirmativa que no passado massageava a vaidade de descendentes dos heróis e mártires que lutaram por esse estado, hoje é entoado em frases jocosas proferidas pelos compatricios que são entusiastas da França, como se a Guiana Francesa fosse a Dubai da Amazônia.
Podemos não ter administração e nem sangue europeu, mas já vivemos nossos dias de glória e em nada perdemos para os colegas de fronteira. No Amapá do passado, recebíamos excursionistas internacionais que viajavam para assistir e ou surfar a pororoca. As vagas de empregos eram fartas ao ponto de nossos compatriotas transmigrarem de seus estados em busca de empregos no Amapá. A política era pautada no diálogo afável e formal, onde era possível ver os políticos com posições antagônicas, se apartar de suas ideologias em prol de decisões que favoreciam a coletividade. Ainda nesses dias gloriosos, víamos grupos empresariais transnacionais desembarcarem em solo amapaense com sede de fazer negócios. Os indicadores socioeconômicos eram positivos ou, minimamente, dentro do aceitável. Passado! Infelizmente essas lembranças ficam no plano da saudade. Hoje é apenas um pretérito quase perfeito, como no livro de Ronaldo Guimarães.

O passado de conquistas foi desvanecido. Se antes tínhamos a oportunidade de cruzar com a alta sociedade intelectual e artística nacional pela garbosa orla de Macapá, hoje nossos maiores turistas são os agentes da Polícia Federal, que frequentam com assiduidade o estado a fim de investigar denúncias de corrupção.
Os empregos, outrora abundantes, ficam no plano do discurso político, quando algum governante profere palestra em uma das instituições que compõem o sistema S. Na prática, há uma migração inter-regional por questões econômicas de amapaense para estados da região sul do Brasil. Segundo o IBGE, o estado do Amapá possui taxa de desemprego superior a 17% e figura em terceiro lugar no ranking dos estados líderes em desempregados no Brasil.
E a política? Adaptando a frase de Clarice Pacheco “O “político” perdeu a razão. Se afogou na própria ambição.” O passado obsequioso para com os coestaduanos foi extinto. Hodiernamente, o que vemos na política amapaense são legisladores despudorados, no executivo representante acometidos pela síndrome de Húbris e até mesmo o judiciário já participa desse conciliábulo abstruso que finge cuidar desse venerado estado.
A realidade é que o Amapá já inspira uma ótima telessérie criminal. Nas últimas semanas, diante dessa política desastrosa de confronto, tivemos o desprazer de ver um artista local perdendo a visão após ter sido vítima de um tiro nos olhos. Mais recentemente tivemos a infelicidade de assistir a mais um membro da nobre Polícia Militar do Amapá ser morto.

O estado encontra-se dominado pelo narcotráfico, que pagodeia na cara do poder público e atormenta a população. E o pior de tudo: o estado de solo fertil e farto em minério, é o líder no ranking da pobreza do país, segundo o IBGE. Cerca de 13% da população amapaense está em situação de insegurança alimentar grave. Se olharmos para Macapá, podemos ver que a cidade cresce desordenadamente e já se observa volumosos assentamentos urbanos habitacionais ocupados por pessoas de baixa renda, vítimas da ineficácia do poder público em todas as suas esferas . Ardilosamente já digo que Macapá foi rebaixada de jóia para bijuteria da amazônia.
O rol das ziquiziras amapaenses é tão grande que um querido amigo padre falou em tom anedótico que pensa em pedir a V. S. Papa Francisco que venha pessoalmente dar a Urbi et Orbi ao estado. Como não passa de uma brincadeira, resta-nos lembrar que 2022 é um ano eleitoral e que temos novamente a oportunidade de aplicar o conceito de alternância de poder a fim de afugentar as helicoverpas que destroem essa briosa terra, antes que se crie um novo episódio na história do Brasil: a diáspora amapaense.
Enfrentamento

O Amapá vem enfrentando ataques de todos os lados (pandemia, alagamentos, apagão, falta de medicamentos, crime organizado se firmando no estado) e os administradores do governo amapaense, não veem a dimensão dos problemas enfrentados pela população e mantém um marasmo nas resoluções. O desemprego crescendo e o cidadão atado, aceita o recrutamento das organizações criminosas viraliza e contaminam nossa juventude.
Querendo ou não o congelamento dos salários dos funcionários estaduais tem contribuído para essa realidade. Muitas pessoas que trabalhavam para esses funcionários foram dispensados devido aos mesmos não terem como pagá-los e tão pouco comprar nos trabalhadores informais. Cada dia mais gente vivendo na informalidade por não poderem pagar os impostos. Ontem mesmo a taxa de retirada de RG subiu quase 100%.
Como vamos aguentar sem tem aumento nos salários e na oferta de empregos?

De acordo com o entendimento do ex-promotor de Justiça do Amapá, Adilson Garcia a violência está intrinsecamente ligada com a baixa escolaridade com a falta de emprego falta de oportunidades sociais falta de indústrias.
“Certamente que para suprir as necessidades materiais não é correto o uso da criminalidade, ou seja, não justifica. O Amapá tem que tomar um rumo para reativar o setor produtivo mineral destravar o agronegócio e ter políticas públicas para incentivar a implantação de indústrias, serviços e outras atividades econômicas dos três setores porque senão a Escalada da violência tende a subir infelizmente”, resume Adilson Garcia.
Amapá lidera o ranking com 56% da população na linha de pobreza.
Estudo do economista Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), divulgada pelo jornal Valor Econômico, na quinta-feira, 26/12, mostra que o percentual da população pobre aumentou em 24 das 27 unidades da federação brasileira entre o primeiro trimestre de 2019 e janeiro de 2021. Entre os Estados, o Amapá lidera o ranking com 56% da população.
De acordo com o jornal, os cálculos foram feitos a partir de dados do IBGE, considerando a classificação de pobreza pelo Banco Mundial, de renda per capita de até US$ 5,50 por dia, ou cerca de R$ 450 por mês, com base na taxa de câmbio da paridade do poder de compra (critério que busca eliminar as diferenças de custo de vida, permitindo uma comparação entre países).
Em 2019, o Amapá tinha 51,4% da população pobre, enquanto que o Maranhão liderava com 54,9%. De acordo com o professor e sociólogo, Caio Isackson, além da pandemia o governo do Amapá desde 2015 reduziu de quase 20 mil para pouco mais de 4 mil o número de famílias beneficiadas com programas de transferência de renda, como é o caso do programa Renda Para Viver Melhor.
"O que observamos, que esses programas são potencializados em período de eleição. Hoje, o que temos é uma política social desajustada com dificuldade de se pensar uma estratégia de encarar os efeitos. Numa situação de precarização que nós vivemos a partir da pandemia o Estado não teve uma dinâmica para abraçar essa parcela da sociedade. Faltou criatividade do governo", disse o sociólogo que também associa à demora da aquisição de vacinas por parte do governo federal e a quantidade em pequena escala. "Atrapalhou tudo. Além disso, esse assistencialismo de R$ 200 não ampara às famílias. Hoje, mal dá pra comprar um botijão de gás", analisa.
VIOLÊNCIA
O Amapá vem sendo dominado pelos criminosos, em todas as esferas: desde os ocupantes de cargos públicos ao criminosos periféricos. Em todos os bairros predomina as ameaças a vida do amapaense, seja ele comerciante, funcionário público ou vendedor ambulante. Até os agentes de segurança pública estão sendo alvos das facções criminosas que estão formadas e recrutando a juventude do Amapá.
Nesta quarta-feira (05) um policial militar foi alvejado durante tentativa de assalto em Laboratório de Macapá. O policial foi levado ao Hospital de Emergência, mas não resistiu após ser baleado. Os criminosos se entregaram e estão no IAPEN.
A penitenciária amapaense (IAPEN) que está superlotada, vem sofrendo com a contaminação do detentos pela gripe Influenza. E sem um departamento médico equipado, a diretoria autoriza os familiares a trazerem os medicamentos para os parentes.
E a rede de saúde do Amapá, há décadas sofre com a falta de investimentos nos hospitais e quando os recursos chegam, são desviados. Isso está comparado com a visita diuturnamente da Policia Federal na sede da secretaria estadual de Saúde e nas residências de servidores e políticos comprometidos com a corrupção.
Para fechar pois o assunto é longo, os deputados estaduais, no ano eleitoral, após dois anos de pandemia, resolveram colocar a cabeça para fora e criar uma CPI para investigar o governo Waldez Góes.
