Tia Iracema: um dos símbolos da raiz cultural da história do Amapá
Maria Luíza Gomes

Aos 75 anos de idade, Iracema Martins Malvão, nascida e criada no estado do Amapá é uma das mais antigas moradoras do bairro Central de Macapá, aonde reside até hoje. Conhecida carinhosamente como Tia Iracema, ela faz parte da história viva da raiz cultural amapaense que tem como sua maior contribuição a luta e as tradições do povo negro.
Espírita, ela conta que seu pai, Osvaldo Piracicaba Malvão, foi um dos primeiros médiuns espiritistas amapaense, inclusive, teve grande contribuição e importância para a fundação da Federação Espírita do Amapá, fundada pelo seu amigo da época, senhor Luiz Gonzaga Pereira de Souza.
Tia Iracema, lembra com riqueza de detalhes como era a vida daquela época e como após a morte de seu pai fundou no seu quintal o Centro Espírita com o nome, Osvaldo Piracicaba Malvão, em homenagem ao seu pai.

"Meu pai era uma pessoa humilde, ajudava as pessoas necessitadas, tratava dos doentes, aplicava o passe desde idosos e crianças. Fazia caridade para ajudar quem precisasse, vinham muitas pessoas atrás dele. Me educou nos estudos para exercer a minha mediunidade segundo o evangelho espírita. E um ensinamento do evangelho que ele não cansava de dizer: - 'Dai de graça o que de graça recebeste. Fazei o exemplo de Cristo.' E esse ensinamento é a prática da minha vida, essa é a verdadeira caridade que Jesus nos deixou. E eu repasso para as pessoas para que levem para suas vidas", conta emocionada.
Na época, devido ao difícil acesso a medicina, Tia Iracema conta que, as pessoas só se tratavam com plantas medicinais ou com "puxação", massagem curativa para colocar osso no lugar e aliviar dores musculares.
Lembra que quando estava em obras o Centro Espírita que funciona no quintal da sua casa, ela caiu de uma escada e teve a costela fraturada que ficou uma por cima da outra e quem tratou dela na época foi a dona Castorina, a saudosa Maria Castorina Ardasse da Silva, famosa "benzedeira" por seu grande conhecimento da medicina popular natural, (falecida em 2015).
Ela explica que daí por diante começou a tratar das pessoas, adultos, crianças e idosos fazendo remédio caseiro, aplicando passe.
A cura do Comandante Barcelos
"Tratei até do Comandante Aníbal Barcelos, que na época era governador do Amapá. Ele estava com a perna enorme, muito inxada e com erisipela. Como eu já tinha tratado da sogra do assessor dele o senhor Estoécio, ele lembrou de mim e veio até a minha casa, chegou aqui disse:
- 'Minha preta, já ajudasse minha sogra a ficar curada, eu sei que pode ajudar o "velinho.' Ele falava velinho, mas eu não sabia quem era esse velinho, aí ele disse:
- 'Eu vou te falar logo quem é o velinho é o Comandante Barcelos. Eu falei para ele que tu é filha do senhor Malvão, que teu pai era um grande espiríta. Então eu vim te buscar para ir benzer ele porque ele está com 38 graus de febre que não baixa.'
(O meu pai foi trazido para o Amapá pelo Coronel Janary Gentil Nunes, em 1944, quando ele foi enviado pelo presidente Getúlio Vargas para governar à época o então Território Federal do Amapá.)"
Ela fala com carinho do Comandante Barcelos, que recebia a todos sempre com muita atenção. Diz que ao chegar na residência oficial, a Casa do Governador, localizada no centro de Macapá estava lotada de assessores e do secretariado do governador, que estavam levando documentos para ele assinar e despachar da residência.
Tia Iracema conta que na ocasião, pediu para o assessor Estoécio que ele retirasse da sala o aglomerado de pessoas e os oito médicos que também se encontravam lá para que ela pudesse ficar num ambiente tranquilo para benzer o Comandante.
"Comecei a benzer o Comandante, ele abria a boca e eu abria a boca também e logo começou a suar até molhar a camisa. Ele disse: -'Dona Iracema a senhora é poderosa.' Eu disse: não, eu não sou nada, quem tem poder é Deus, quem está irradiando para o senhor é Ele, eu sou apenas o instrumento Dele. Aí ele disse: -'Está passando a minha febre.' E a febre dele passou, tratei da erisipela com plantas medicinais e ele logo ficou curado. Ele teve fé e Deus concedeu a cura."
Gratidão e caridade
Também explica que na época em que tratou da saúde do governador, com o recurso das vendas que fazia de comidas típicas, tacacá, vatapá e maniçoba ela conseguiu comprar um terreno no bairro Jardim II, cujo objetivo era construir o Centro com o nome de seu pai para atender as pessoas e distribuir alimento para famílias carentes. Na época, não tinha nada construído só havia o lote de terra. Ao saber do trabalho da Tia Iracema, como forma de agradecimento o Comandante fez a doação do matetrial para construção do Centro.
Atualmente, o Centro Espírita Osvaldo Piracicaba, funciona no bairro Jardim II, na avenida Alexandre Ferreira da Silva, nº 2745. Os frequentadores participam de palestras, estudo do evangelho e atendimento fraterno. O Centro também faz distribuição de cestas básicas para famílias de baixa renda quando recebe doações, quem tiver interesse em ajudar basta procurar o endereço acima.
"A gente não escolhe quem ajudar, mas também é preciso que a pessoa queira se ajudar e quando Deus permite fica curado. Já tratei de muitas pessoas que nem conheço, recente eu cuidei de um senhor que se curou de um cancêr, fiz o remédio de plantas medicinais e o passe. Ele foi para Caiena e lá o médico voltou a fazer os exames e não encontrou mais nada. Com o remédio e a fé dele, Deus concedeu e ele se curou", contou Tia Iracema.
Detentora de um legado deixado pelo seu pai, Tia Iracema diz que a missão é árdua, mas não esconde na beleza de sua simplicidade o sorriso de gratidão em ajudar quem precisa. Indagada sobre o segredo dessa alegria, ela diz.
"Não tem segredo para se sentir alegre, basta fazer o bem para as pessoas e não desejar mal a ninguém. Quem trabalha para ajudar o próximo não tem tempo para ser triste. Só de dar uma prato de comida para alguém, tratar da saúde de quem precisa e ver o sorriso dessas pessoas. Essa é a maior riqueza da vida", finalizou Tia Iracema.
