O MACAPÁ HOTEL ESTÁ ABANDONADO E VIRANDO RUÍNAS

Por Walter Jr Carmo, João Lázaro, Seles Nafes e Alcilene Cavalcante

É triste a situação atual do Hotel Macapá. Tomado pelo mato com a estrutura virando ruína. O prédio histórico que outrora foi o ponto de encontro dos moradores de Macapá e que hospedou figuras ilustres, nacionais e internacionais, hoje amarga o desprezo do poder público.

Fundado como Grande Hotel de Macapá, foi construído entre 1944 e 1945 pelo primeiro governador do então Território Federal do Amapá, Janary Gentil Nunes, para atender ao crescente número de visitantes e novos funcionários que chegavam à nova unidade da Federação.
A construção foi iniciada em 1º julho de 1944, e erguia uma cena de alvenaria e tijolos, com vigas de concreto armado em dois pavimentos, bem diante de choupanas de madeira que prevaleciam na Rua da Praia, hoje Rua Azarias da Costa Neto, na orla de Macapá.

Quando o nome mudou para Macapá Hotel o glamour continuou com maior intensidade sempre com ares de sofisticação. Lá eram realizados os grandes eventos de negócios, os principais acontecimentos da alta sociedade, como bailes de formatura, de debutantes e os inesquecíveis bailes de carnaval no salão todo enfeitado de grandes e coloridas máscaras, onde moças belíssimas, filhas de famílias importantes de funcionários do Governo, que fantasiadas pulavam as marchinhas. As sacadas se transformavam em camarotes da mais fina flor da sociedade amapaense, regados a ponche e whisky importado. Eram noites deslumbrantes
O Macapá Hotel era, sem dúvida, o local preferido das famílias e ponto de encontro obrigatório de jovens e adolescentes que circulavam a pé na cidade.

Aos domingos, após as matinês nos Cines Territorial, Macapá e João XXIII, os jovens casais de namorados iam passear no Trapiche Eliezer Levy, pegar a brisa do Amazonas e tomar os sorvetes nas taças do Macapá Hotel, onde também era servido o gostoso e inigualável Flip Guaraná, pelo famoso garçom Inácio.
No início dos anos 70 foi arrendado para o empresário Genésio Antônio de Castro, A administração do “Seu” Genésio modernizou o Macapá Hotel. Aumentou a variedade de sorvetes e drinks. Os frequentadores podiam deliciar-se com o, até então inédito, Milk Shake e o sanduiche misto-quente, só conhecidos nas lanchonetes da ICOMI. Nessa época foi inaugurada a boate Geli (junção das primeiras letras de Genésio e Líbia, esposa do empresário). O sucesso foi tanto que havia fila de espera para entrar na boate.

O Macapá Hotel recebeu grandes nomes da cultura, como o cantor Roberto Carlos, que no auge da Jovem Guarda concedeu entrevista aos repórteres Cristina Homobono e João Lázaro na varanda em frente ao rio Amazonas; presidentes da República, como Castelo Branco, José Sarney, João Figueiredo, Fernando Color e Lula da Silva.
No início dos anos 80 o Macapá Hotel foi arrendado para o grupo francês de hotelaria, Accor, um dos maiores do mundo no segmento com seis redes hoteleiras, como Ibis, Mercuree , Sofitel e mudou o nome para Novotel.

O novo gerente-geral, o suíço Diego Born que assumiu em outubro de 1984 dinamizou o Novotel. Foram tempos memoráveis que estão na memória dos macapaenses que viveram essa época.
O Novotel era o único local onde havia quadra de tênis e um serviço realmente sofisticado de restaurante e bar dos grandes hotéis. Era comum os shows e apresentações de artistas locais como Nonato Leal, Grupo Café com Leite, Amilar Brenha e outros. Os grandes bailes de carnaval voltaram, como os do Havai a partir de 1985. O então Novotel Macapá chegou a receber 3 estrelas da Embratur.

Posicionado ao lado da Praça Isaac Zagury e de frente para o Rio Amazonas, não havia lugar mais agradável para se hospedar ou frequentar. O vento, a paisagem, as festas, os frequentadores, tudo era favorável para a procura do Novotel Macapá para as tardes de fim de semana. Junto com os também históricos Museu Joaquim Caetano, Praça Zagury, Fortaleza de São José e Trapiche Eliezer Levy, formavam o corredor onde desfilavam pessoas de todas as classes sociais.
Em 1990 o contrato com o grupo Accor não foi renovado e a rede Novotel retirou-se do Amapá.
Em meados dos anos 1990, o prédio passou a ser administrado por um grupo local que nada tinha a ver com turismo.

Nos últimos 22 anos vinha sendo explorado por terceiros, por concessão do Governo do Estado e mudou de nome pela quarta vez: recebeu a denominação de Hotel Macapá. E nunca mais foi o mesmo. Ficou parado no tempo.
Em 2014 surgiu a ideia é transformá-lo em Centro Cultural, interligando Casa do Artesão, Casa do Índio, Trapiche e Fortaleza. O projeto do Governo do Estado foi discutido com entidades culturais, e tem à frente a paisagista e arquiteta Rosa Grena Kliass, uma das mais importantes do paisagismo moderno e contemporâneo, autora do projeto do entorno da Fortaleza de São José de Macapá, e Amir Addad, teatrólogo não menos famoso. O projeto foi arquivado pelo atual governo.
Para piorar, há cerca de 4 anos, a gestão do Macapá Hotel caiu no limbo. O grupo local não teve o contrato renovado e o lugar passou a ser administrado por um empresário que já explorava o local informalmente, num regime de sublocação. Nesse período quem se hospedava precisava conviver com festas de música alta, shows e até com um velho parque de diversões plantado dentro das dependências do hotel. Os velhos brinquedos, com espaços mínimos entre um e outro, entulhavam o acesso à piscina, Com a música alta do restaurante externo, o que estava ruim ficou ainda pior. A parte de trás foi alugada para um shopping para ser usada como estacionamento dos clientes em compras. E acreditem se quiser: não havia contrato.
Em 2017, o governo do Estado chegou a anunciar que o Macapá Hotel seria vendido. Nada aconteceu.
Em fevereiro de 2019 o Governo do Estado ganhou na Justiça a reintegração de posse das instalações do hotel. Depois disso, anunciou novas destinações ao Macapá Hotel, uma vez que o seu objetivo original não mais prevalece.
Uma das propostas é que ele seja aproveitado para agrupar secretarias do setor econômico. A segundo proposta ,divulgada pelo GEA, foi que o espaço se tornaráia um complexo empreendedor, cultural e turístico, abrigando auditório, locais para exposição, restaurante, café, lago com peixes da região, e ainda uma lanchonete e ainda abrigaria as secretarias do Trabalho (Sete), da Cultura (Secult) e do Turismo (Setur do Trabalho. A licitação chegou a ser anunciada, mas nada disso saiu do papel.
Hoje quem quiser reviver o tradicional passeio do Cine João XXIII até o Trapiche Eliezer Levy vai se decepcionar. O cinema não existe mais. Deu lugar a um shopping center. Ao dobrar na Avenida Mario Cruz vai se deparar com o Teatro das Bacabeiras abandonado e o Museu Joaquim Caetano da Silva em situação de abandono. Além do Macapá Hotel não poderá visitar o Trapiche. Ambos foram relegados ao desprezo. Assim como a Fortaleza de São José e a Residência Oficial, que nos últimos sete anos são vítimas do descaso.
O tempo passou. A paisagem e a brisa do Amazonas já não são suficientes para atrair hospedes e convidados para as noites fabulosas. Esse mesmo tempo, traiçoeiro, aliado à falta de uma boa gestão, responsabilidade e de compromisso com os nossos patrimônio, se encarregou de deixar apenas nos escritos os momentos de glória do Macapá Hotel.
